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Toni
Marques não tem cara de jornalista. Tudo bem, jornalista não tem
uma cara. Mas se tivesse, não seria a do Toni. Alto, magro, muito
branco, e cheio (mas cheio mesmo) de tatuagens. Se veste com um
estilopróprio e diz que é o "figuraça da redação". A redação a que
ele se refere é a do jornal O Globo, onde ele atualmente trabalha
como editor do caderno Ela.
Carioca,
nascido em 1964, Toni já tinha trabalhado como jornalista nos jornais
Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil. Como roteirista, escreveu
para os programas TV Colosso e Domingão do Faustão. Ele também é
autor do livro Brasil Tatuado e Outros Mundos, da Editora Rocco.
Na
entrevista a seguir, Toni explica o que é o caderno Ela, como ele
é editado e o que interessa e o que não interessa ao caderno de
moda e comportamento de um dos maiores jornais do país.
Como
o caderno Ela definido dentro do Globo?
>>Como um caderno de sofisticação
e atrevimento, dentro do campo do comportamento, tendo moda como
âncora e se espraiando para decoração, etc. É único dentro da imprensa
brasileira. Mas ele também pode ser visto como coisa de tarado,
de maluco.
Como
é editar o Ela? Vocês se baseiam no que acontece no Rio de Janeiro?
>>A gente faz por aqui
(Rio), mas o caderno tem um perfil cosmopolita. Para o caderno,
sempre foi mais interessante o que está sendo feito numa esquina
em Milão do que numa esquina do Leblon. Em alguns leitores isso
gera um certa frustração pois eles dizem que o caderno é colonizado,
etc. Cabe também (na linha editorial) a noção de vulgaridade, mas
isso tem que ser avaliado caso a caso, qual o tratamento a ser dado.
Para eles, é importante que o leitor tenha a sensação de ler ali
o que não está em nenhum outro lugar, e por isso o caderno paga
um preço, já que perde várias coisas que poderiam ser exploradas
de uma maneira diferente do usual. Tem coisas que sempre rendem
"Ibope" e as pessoas não sabem, por exemplo, uma matéria sobre uma
clínica para viciados em sexo, feita pelo correspondente em NY.
Por outro lado, existem coisas que para mim nem são pauta, como
televisão. A Tiazinha nunca foi problema para mim.
Você
busca muita pauta na Internet?
>>Ah, sim. Eu estou sempre
fuçando para achar alguma coisa.
Qual
é a equipe do caderno Ela?
>>Somos quatro pessoas
e os correspondentes do jornal. Os correspondentes têm de cobrir
de tudo, são pressionados por todas as editorias do jornal, e eu
tenho que cobrar as pautas para o Ela. A coordenação de moda é terceirizada.
E mesmo assim é um desafio encontrar pautas cariocas que sejam legais.
Como
é a reunião de pauta?
>>É difícil porque a gente
não pode dar matérias que outros veículos vão dar. E o que a gente
aborda pode ser furado por qualquer um. E é difícil também porque
a gente tem pouco tempo para ver tudo está acontecendo. Eu tenho
a seguinte filosofia: é cada vez mais difícil você ser exclusivo
porque a imprensa está cada vez maior, ainda mais agora com a Internet.
O que faço é correr para o meu repertório particular de temas e
é deste baú que eu venho tirando as pautas. Até agora eles estão
felizes.
Então
você tem autonomia?
>>Eu tenho total autonomia.
Eu faço o que eu quiser. Primeiro porque as pautas são muito específicas,
segundo porque a fatia de problemas que o caderno pode causar tende
a zero. Todos os dias, o editor tem que lidar com problemas como
o ACM querendo processar o jornal, acompanhar a votação de não sei
o quê, apurar a denúncia de não sei das quantas.
E
o público chega a reclamar desta linha editorial?
>>Não. De vez em quando,
alguém escreve dizendo que o caderno é esnobe. Mas as pessoas entendem
o que elas querem entender. Por exemplo, uma vez nós fizemos uma
matéria com a cozinheira do planalto e teve gente ligando para dizer
que nós estávamos defendendo o Fernando Henrique. No geral, o feedback
e pequeno.
Isso
te incomoda?
>>Não.
Vocês
não se preocupam em cobrir desfiles...
>> Não, por vários motivos.
Se você não assistir ao desfile, você não sabe o que realmente aconteceu.
Você então recebe 20 fotos, que vão representar 20 roupas, isso
é talvez um décimo do que o estilista apresentou. Além disso, antes
de eu fechar esse tipo de matéria a televisão já a mostrou, então
... Qual a conseqüência de se saber, por exemplo, que se está usando
cobra. É importante saber o que está acontecendo, mas também é preciso
tomar um distanciamento, ficar um pouco blasé quanto a isso. No
fim das contas eu vou estar fazendo um jogo de multinacionais e
de griffes.
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