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:: GASTRO PUNK ::
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Parece Cuba mas não é
fila para comer no bandejão da central
Vendedores de ônibus
o trabalho dos vendedores passageiros
Churros del Uruguay
Use e se lambuze com os Churros
 
     Uma imensa fila para comer organizada por gestores do governo. Cada um espera civilizada e pacientemente a vez para apanhar a sua porção de arroz, feijão, carne (bife ou frango) e ainda uma tigela de sopa, um naco de pão, refresco e sorvete. No final, café, chá e água. Tudo por um preço simbólico. A maioria são idosos, mas pode-se ver também muitos deficientes físicos e jovens trabalhadores urbanos. A higiene do restaurante impressiona. Só se pode entrar na cozinha com touca, os talheres e os pratos são esterilizados, e as mesas são limpas constantemente. O cardápio é elaborado por seis nutricionistas, que disponibilizam 1500 calorias em cada refeição. Todos vão embora satisfeitos, esperando o almoço do dia seguinte.

     Não, este não é um restaurante em Havana, Cuba, o último sistema socialista do mundo. Este lugar fica na América do Sul, laboratório de todas as idéias globalizantes e neoliberalistas do Planeta. Mais precisamente na Central do Brasil, descoberta, recente e ironicamente, pelo primeiro mundo através do filme de Walter Salles Jr. É o Restaurante Popular do Betinho, inaugurado em 13 de novembro de 2000, pelo governador do Estado do Rio, Anthony Garotinho. Os cozinheiros preparam cerca de 330 kgs de arroz e 120 kg de feijão por dia para atender a, aproximadamente, três mil estômagos famintos diariamente. São dois refeitórios com capacidade para, juntos, 344 pessoas e três banheiros, sendo um para deficientes físicos.

     As nutricionistas dizem que as 1500 calorias das refeições suprem 70% das necessidades diárias de uma pessoa adulta. O cardápio varia todo dia, mas sempre tem feijão, arroz e três tipos de salada e dois tipos de carne: uma vermelha e uma branca, mas o freguês tem optar por uma das duas. "Fazemos uma dieta balanceada para evitar problemas cardíacos posteriores", diz uma das especialistas em alimentação, Luciana Bassoto.

     Miguel Vitor de Moura é o funcionário do governo que administra o lugar. Figura querida entre os freqüentadores e de boa prosa. Percebe-se uma grande admiração dele e de todos por Garotinho."Se precisasse, trabalharia sem ganhar um tostão. Faço isso por amizade ao governador e à Rosângela Mateus (primeira-dama e secretária de Ação Social do Estado)", diz Moura.

     O restaurante parece ter entrado na rotina dos trabalhadores e aposentados dos passantes da Central. A fila para entrar demora cerca de uma hora (apesar de Moura afirmar ser de 30 minutos). "Vale a pena esperar, a gente come como em poucos lugares e paga de três a quatro vezes menos", conta o pedreiro Aurino Lima, de 56 anos, freqüentador diário. Depois de passar pela segurança na entrada, que chega a ser truculenta às vezes, os clientes pagam a "conta" de R$ 1,00 já na entrada e depois entram em outra fila para pegar o bandejão. Daí pra frente é só emoção. "A comida é excelente, principalmente a sopa, e a limpeza também", diz Osvaldo Galdino, 63 anos, aposentado.

     Fiquei desconfiado. Havia muitos evangélicos e eu pensei que a simpatia pela comida se confundisse pela identificação religiosa daquelas pessoas com o governador, facilmente identificado como idealizador do projeto. Foi então que, por volta da uma da tarde bateu aquela fome escabrosa. Eu e o Breno andando ali por dentro, nas mesas, na cozinha, e sentindo o cheiro da comidinha caseira e bem temperada...É, não deu outra não. Deitamos o cabelo no frango, na sopa e em tudo mais que tínhamos direito. Enchemos o bucho mesmo. Tava bom demais e foi qu’eu vi como todos estavam sendo sinceros. O Restaurante Popular do Betinho é uma grande idéia e, até agora, uma bela execução. Tomara que dure e se prolifere.

     O restaurante funciona de segunda a sexta, de 10h às 15h e fica no térreo da Estação da Central do Brasil.


Fotos de Breno Pineschi
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