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Mariana Ianelli
Aline Freitas
 
 
Portfolio - Mariana Ianelli
O valor da Palavra
por Pedro Barreto
 O CENA URBANA abre uma exceção ao seu subtítulo: "Rio, cultura e novos talentos". Mariana Ianelli é paulista, mas não deixa de ser cultura e um novo talento. Conheci o seu trabalho há um ano navegando pela Internet. Foi num desses mecanismos de busca que descobri a sua página (www.uol.com.br/marianaianelli ) dentro do portal da UOL. Ela tira onda: sua apresentação é escrita por ninguém menos que o poeta Ignácio de Loyola Brandão. Para ele, "Mariana conhece o valor de cada palavra, a síntese, ela sabe como transformar a palavra em estilete, cortando fundo". Que isso, hein? Aos 20 anos, já tem um livro, chamado "Trajetória de Antes" (nome de uma de suas obras), uma reunião de suas primeiras obras, onde ela diz haver "excessos, imaturidade". Bobagem Mariana, bobagem. Foi aí que eu comecei a me corresponder com ela, como admirador da boa poesia (e escritor de outra poesia, não tão boa assim). Mariana se mostrou sempre solícita e paciente com um repórter chato e, por vezes, ignorante da matéria. O que vos redijo agora é apenas a transcrição de alguns trechos dessas "conversas" virtuais, em forma de 'ping-pong'.



CENA URBANA - Fale um pouco sobre o seu primeiro livro, "Trajetória de Antes".

Mariana Ianelli - É claro que em um primeiro livro ainda existem excessos, imaturidade. Mas também uma espécie de espontaneidade corajosa, que, se for descuidada, acaba perdendo força e inibindo o próprio ritmo do trabalho. Perigoso, não é? Enfim, além do primeiro passo, algum caminho (responsável) se constrói.


C.U. - O que vc pretende com a sua poesia? Comunicar-se com o leitor ou simplesmente "desabafar"?

M.I. - Espero de um leitor o reconhecimento sensível que realize a mensagem poética para ele próprio, ou seja, que meu leitor construa para si uma identidade do poema que lhe seja familiar e pessoal. Devo aos que me lêem, à você, por exemplo, o meu melhor rigor.


C.U. - Num mundo voltado essencialmente para o visual, ainda há espaço para a poesia?

M.I. - Eu acredito que a espécie de poemas interessada na exploração principalmente visual da palavra traz consigo também a proposta de uma abordagem de idéias desde a sua raiz diferente daquela sugerida pelos "poemas lineares". A poesia é um gênero que participa com uma presença inseparável da própria origem das ficções literárias e que portanto tem o seu espaço essencial no interior da criação estética da fantasia e da beleza, a partir da iniciativa artística e sensível de alguns homens.


C.U. - Não é contraditório que uma artista como vc, que prega "uma reflexão mais profunda" (ler entrevista no site da artista), criticando "a poesia que mexe com as percepções sensoriais divertindo o leitor ao invés de levá-lo a uma reflexão mais profunda", utilize a Internet, um veículo que, teoricamente, se utiliza de um conteúdo superficial e descartável?


M.I. A minha crítica diz respeito a um aproveitamento das tais novas técnicas que seja entendido como uma possibilidade ( aí sim equivocada ) de substituição de um pensamento artístico convencional por outro mais arrojado, mais moderno.


C.U. - Como a Internet pode contribuir para a difusão da poesia?


M.I. - Não é porque sou favorável ao uso, por enquanto, apenas instrumental da Internet, não me parece nada contraditório que eu busque divulgar a poesia por meio de uma homepage. Aliás, sou uma só pessoa dentre milhares daquelas que defendem a difusão consciente e reflexiva, sim, da poesia pela Internet. Sites que eu cito como exemplo, são o "Jornal de Poesia" (http://www.secrel.com.br/jpoesia/ ), para fins de pesquisa em geral, e "Poesía en Internet", da coleção espanhola de livros de poesia Plaza Janés (http://www.tsc.es/p&j/poesia/), que embora pretenda também vender os livros que apresenta, dá um panorama importante do conteúdo poético desses livros.


C.U. - O jovem se interessa pela poesia?

M.I. - Ora, aquele que estiver preocupado com o bom sentimento versado em palavras, com a comunicação essencial dos melhores problemas do espírito...sim.


C.U. - A poesia pode ser lida/escrita por qualquer pessoa?


M.I. - A leitura deste gênero deveria sempre exigir uma sensibilidade educada para uma fruição especialmente elegante e bem atenciosa das linhas e das palavras escolhidas para cada verso. E para tanto, os nomes de alguns poetas da história da poesia universal não podem ser ignorados. Para só lembrar alguns absolutamente necessários em sua linguagem, T.S.Eliot, Rainer Maria Rilke, W.H.Auden, Cesar Vallejo, Fernando Pessoa, Hilda Hilst...e veja que não citei os "poetas antigos" (clássicos)...



C.U. - Na atual conjuntura econômica mundial, é possível viver de poesia?


M.I. - Materialmente, muitíssimo difícil...mas em termos psicológicos, imprescindível.


C.U. - Como está o seu trabalho?

M.I. - Tenho outro livro esperando ser publicado. As perspectivas recentes têm me prometido um lançamento para o segundo semestre deste ano. Há dois anos que a minha atividade em busca da poesia vem se tornando mais sistematizada e que assumo minha opção pelo tema da dor e de como enfrentá-la pela adoração de imagens aparentemente negativas e muito tristes.

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